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Igreja Anglicana Católica

O REAVIVAMENTO CATÓLICO DE OXFORD.

 

1. Renascimento espiritual.

 

       O Movimento de Oxford corresponde a um renascimento espiritual ocorrido entre 1833 e 1845 dentro da Comunhão Anglicana. Tinha por sede a Universidade de Oxford, à qual pertenciam muitos dos participantes do Movimento. É de notar que naquela época Universidade, Igreja e a Nação eram interdependentes entre si, de modo que o Movimento de Oxford desenvolveu papel importante na vida da Inglaterra do século XIX.

         Os principais arautos do Movimento foram John Keble (1792-1846), Richard Froude (1803-1836), John Henry Newman (1801 -1890) e Edward Bouveric Pusey (1800-1883), todos mestres de qualidades excepcionais.

           Em meio ao liberalismo e ao materialismo do século XIX, o Movimento tinha por finalidade voltar às fontes do Cristianismo, estudar a respectiva Tradição testemunhada pelos escritos dos antigos Padres da Igreja e pelos primeiros monitores, examinar a origem divina da Igreja e a hierarquia como sucessora do colegiado dos Apóstolos, aprofundar a noção de sacramento, especialmente o da Santa Ceia. Muito a peito estava também, obter a independência da Igreja frente ao Estado.

          Precisamente as atitudes do Estado perante a Igreja (que dele dependia) irritavam os mestres de Oxford, pois certos decretos do Parlamento ameaçavam a estrutura do anglicanismo; eram liberais em relação aos católicos e favoreciam grupos hostis à religião, além do que o Governo inglês em 1833 mostrou-se disposto a suprimir dez dioceses anglicanas da Irlanda - o que parecia ser indevida ingerência na vida interna da Igreja.

        John Keble acusou o rei, seus Ministros, o Parlamento e a nação de serem responsáveis por atitudes que equivaliam a uma apostasia nacional. O grito de alarme foi lançado no púlpito da igreja universitária de Santa Maria e repercutiu profundamente não só nos ouvintes, mas em toda a Universidade, caracterizando o início do Movimento aos 14 de julho de 1833.

 

2. Os resultados.

 

             O Movimento foi executando seu programa mediante a divulgação de panfletos anônimos intitulados Tracts for the Times a partir de 1833. A maioria deles reproduzia os sermões dominicais de John Henry Newman proferidos na igreja de Santa Maria; esta ia sendo mais e mais frequentada por um público atento e ávido, do qual a maior parte era de futuros membros do clero. A influência do carismático pregador Newman foi muito ampla.

             O objetivo dos Tracts era mostrar a continuidade entre a Igreja Anglicana e os inícios da Igreja Católica; durante nove anos foram publicados sem interrupção, cada vez mais longos e densos.

             Nessa época os dirigentes do Movimento eram anti-romanos e antipapistas convictos, embora admitissem que o Catolicismo trazia em si alguns bons princípios. A Comunhão Anglicana era tida como a via média entre as superstições aceitas pelo Catolicismo Romano no decorrer dos séculos e o radicalismo deletério dos reformadores protestantes do século XVI. O perigo que ameaçava o Anglicanismo seria a tolerância das proposições protestantes e o esquecimento da sua herança católica; a Comunhão Anglicana não seria nem romana nem protestante, mas simplesmente católica.

       Dentro deste contexto estava John Henry Newman. Nas férias de verão de 1839 dedicou-se ao estudo do monofisismo (heresia do século V) e do donatismo (que excluía da Igreja os pecadores); refletiu sobre a posição de Roma frente a tais correntes heréticas e, pela primeira vez, começou a repensar sua posição anti-romana. Com o progresso dos estudos, foi-se convencendo de que a Igreja de Roma; com seus grandes teólogos ou Padres, não era o que os seus preconceitos imaginavam, mas sim o berço do Cristianismo Ocidental que se desenvolveu através dos séculos.

           Aos 27 de fevereiro de 1841 foi publicado o último Tract, de importância decisiva; nele Newman tentava mostrar que os trinta e nove artigos do Credo anglicano (aprovados pelas respectivas autoridades em 1562 e inspirados pela Confissão luterana de Augsburg) não eram incompatíveis com a fé católica; após analisar com perspicácia tais artigos, Newman concluía que não contraditavam a fé católica, embora os reformadores tivessem a intenção de o fazer.

         A reação em Oxford foi imediata: o Tract foi condenado pela imensa maioria dos que o leram. As autoridades universitárias declararam enérgica oposição ao Movimento, suspeitando que os membros deste já estivessem tentando aproximar-se da Igreja Romana. A maioria dos Bispos anglicanos tomou semelhante atitude, o que causou enorme prejuízo ao Movimento. Newman aceitou a controvérsia; retirou-se para a paróquia de Littlemore a cinco milhas da cidade de Oxford; nesse esconderijo percorreu as etapas espirituais que o levaram finalmente à conversão em 9 de outubro de 1845. Alguns colegas o precederam, outros o seguiram na demanda da Igreja Católica Romana.

      A conversão de Newman redundou no fim do Movimento de Oxford. Este teve grande repercussão no futuro da Comunhão Anglicana: a Liturgia e o culto divino passaram a ser mais conscientemente celebrados; de modo geral deu-se um reavivamento da vida cristã na Inglaterra, além de um enriquecimento cultural devido às publicações de textos da antiga literatura cristã e de Teologia.

          Ainda no tocante à Liturgia pode-se notar que o Movimento suscitou no laicato e no clero o anseio de voltar a práticas da Liturgia católica, como uso de paramentos, de incenso, de sacrário para guardar a S. Eucaristia, de um altar de pedra colocado no fundo da igreja. A redescoberta da catolicidade da Igreja era acompanhada de uma compreensão mais tradicional do Sacramento da Eucaristia e de fervida renovação litúrgica.

           Quanto à Vida Religiosa consagrada, também foi promovida pelo Movimento. Em 1841 Marcon Hughet proferiu, na presença de Pusey, os primeiros votos de vida consagrada na Comunhão Anglicana desde a reforma luterana; fundou em 1845 a Sociedade da Sagrada Família. Em 1865 R. M. Benson organizou a Sociedade São João Evangelista. Autorizadas por decreto parlamentar em 1878, essas duas Congregações se desenvolveram com êxito.

        Em suma, o Movimento de Oxford foi valioso por ter restaurado na consciência anglicana a lembrança de sua origem na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.


                                                                                                                                     Texto: Dom Estevão Bittencourt (Com adaptações de Alex Sandro Maciel)

John Newman (1801 -1890)

John Keble (1792-1846)

Edward Bouveric Pusey (1800-1883)

  Richard Froude (1803-1836)

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